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A Palavra de Deus em nosso coração - Thomas Manton

A Palavra de Deus em nosso coração

Thomas Manton

“Guardo no coração as tuas palavras,
para não pecar contra ti”
 — Salmo 119.11

O dever dos filhos de Deus é guardar a Sua Palavra no coração, e fazê-lo com o propósito correto: conhecer a Palavra e ter prazer nela deve conduzi-los a colocá-la em prática.

Um dever e uma prática necessária aos filhos de Deus é guardar a Palavra do coração, fato comprovado pelas Escrituras: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite” (Js 1.8); “Aceita, peço-te, a instrução que profere e põe as suas palavras no teu coração” (Jó 22.22). Armazene as Suas palavras da mesma forma que o fazemos com coisas preciosas, para que não se percam; e esconda-as como um tesouro para ser usado em todas as ocasiões. No coração, que não se atenham ao cérebro e à memória apenas, mas deixe que as emoções, os sentimentos sejam afetados por elas: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3.16). Sejamos diligentes no estudo da Escritura para que se torne familiar a nós, por meio de ouvi-la com frequência, lê-la, meditar nela, trocando ideias sobre ela. Não a deixe na porta, como um estrangeiro, mas acolha-a nos aposentos interiores; que ela se torne familiar como aqueles com quem você convive.  A queixa de Deus a respeito do Seu povo é esta: “Escrevi para eles (para Efraim) as grandezas da minha lei; mas isso é para eles como coisa estranha” (Os 8.12). É um grande mal ser estranho à Palavra de Deus, e ter pouco conhecimento dela.

O que significa guardar a Palavra no coração?

1º) É entendê-la, é obter um adequado conhecimento dela. Nossa alma capta as coisas por meio do entendimento: “a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento será agradável à tua alma” (Pv 2.10).

2º) É acolhê-la com fé. A Palavra se estabelece no coração por meio da fé, de outra forma ela rapidamente desaparece: “a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram” (Hb 4.2).

3º) É recebê-la de bom grado. Cristo protestou: “procurais matar-me, porque a minha palavra não entra em vós” (Jo 8.37). Os homens estão de tal forma dominados por cobiça e preconceito, que não há lugar para a Palavra de Cristo. Embora ela irrompa no coração com evidências e poder, ela no entanto não é recebida ali, mas é expulsa novamente como um hóspede indesejado.

4º) É permitir que lance profundas raízes. Há muitos que têm lampejos momentâneos: suas afeições podem crescer, e podem ter grandes períodos de alegria, mas não têm evidência de uma graça segura: “vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (Jo 5.35). A Palavra precisa estabelecer-se numa afeição permanente, se quisermos receber ajuda e proveito dela. Em Tiago 1.21, lemos a respeito da “palavra em vós implantada” — enquanto a Palavra não tiver raiz em nós, em vão esperaremos o fruto.

 

Duas razões por que é importante que os santos guardem a Palavra no coração:

Primeira, para que a tenhamos à mão para usá-la. Nós armazenamos princípios para podermos usá-los em qualquer ocasião. Quando guardamos a Palavra no coração, ela estará pronta para ser proferida pela boca e posta em prática, e estará disponível para nos dirigir em toda e qualquer obrigação e emergência. Um bom mordomo organiza as compras para não precisar correr à feira por qualquer coisinha que falte na despensa. Assim também, é muito melhor ter a Palavra armazenada no coração do que ter de correr a algum livro a cada momento que se precisa de conforto e socorro. “todo escriba versado no reino dos céus ... tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas” (Mt 13.52). Ele não tem apenas a produção deste ano, mas também o que sobrou do ano passado (é esse o significado do texto): ele não tem somente para o momento, mas tem um bom estoque à mão. Assim deve ser com o cristão, ele será grandemente beneficiado.

1º) Isso o guardará de pensamentos vãos. Por que o mal está tão pronto e presente conosco? Porque nosso estoque de conhecimento espiritual é tão pequeno. O homem cujo cofre contém mais moedinhas de lata do que moedas de ouro, com mais probabilidade haverá de retirar dali mais coisas sem valor do que alguma coisa preciosa; o que domina é aquilo de que se tem maior estoque. Assim também os pensamentos vãos estarão conosco mais prontamente, a não ser que a Palavra habite ricamente em nosso coração. “O homem bom tira do tesouro bom coisas boas” (Mt 12.35). As operações do nosso espírito são como nosso tesouro e armazém. A mente atua naquilo que ela encontra dentro dela mesma, assim como o moinho tritura tudo o que é posto nele — quer seja palha (refugo) quer seja grão. Por essa razão, se queremos nos prevenir de pensamentos malignos e divagações fúteis durante o dia, temos de guardar a Palavra no coração.

2º) Quando estamos sozinhos e não contamos com ajuda externa, nosso coração nos supre o conselho, ou conforto, ou reprimenda de que precisamos: “até durante a noite o meu coração me ensina” (Sl 16.7). Quando estamos sozinhos, e há um véu de trevas posto sobre o mundo, e não temos conosco uma Bíblia, ou um pastor, ou amigos cristãos, nosso coração nos haverá de instruir; poderemos extrair do nosso coração aquilo que nos servirá de conforto e refrigério. Um cristão deve ser uma Bíblia ambulante: deve ter um bom estoque armazenado dentro de si.

3º) Isso nos fortalecerá na oração. Aridez e pobreza de alma são uma grande deficiência, da qual muitas vezes os filhos de Deus se queixam. Uma grande razão é que a Palavra de Deus não habita ricamente neles. Se o coração fosse treinado na Palavra com mais frequência, as promessas guardariam o nosso coração em atitude de oração, alargariam as nossas afeições, e estaríamos mais aptos para derramar o espírito diante de Deus. “De boas palavras transborda o meu coração” (Sl 45.1). E o que vem a seguir? “a minha língua é como a pena de habilidoso escritor”. Quando o coração está cheio, a língua se solta e fala com desenvoltura. Por que razão somos tão lerdos e tímidos na oração? Por causa da aridez do coração. Quando a nascente está seca, corre muito pouca água no riacho. “Tomai ... a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” e depois segue a instrução: “com toda oração e súplica” (Ef 6.17-18). Quando temos um bom estoque da Palavra, ela jorra em oração.

4º) Estocar a Palavra no coração será de grande ajuda em todas as nossas ocupações. Em Provérbios 6.21-22 lemos o seguinte, a respeito dos preceitos de Deus: “ata-os perpetuamente ao teu coração, pendura-os ao pescoço. Quando caminhares, isso te guiará; quando te deitares, te guardará; quando acordares, falará contigo”. Em toda e qualquer ocasião, a Palavra será capaz de convocar pensamentos apropriados. Quando acordarmos, nossos primeiros pensamentos estarão em Deus, para temperar o coração o dia todo; e à medida que estivermos envolvidos em nossas obrigações, a Palavra conservará nosso coração no temor de Deus; e quando formos dormir, nos guardará de sonhos e de imaginações fúteis. No homem perverso, o pecado absorve todos os seus pensamentos: o dia todo ele está ocupado com o pecado; atua a noite toda conforme as fantasias do pecado; o pecado é a primeira coisa que lhe chama a atenção de manhã, porque o perverso não conhece a Palavra de Deus. Mas ao homem que está cheio da Bíblia, essa mesma Palavra estará sempre com ele, impelindo-o à responsabilidade, refreando o pecado, dirigindo-o em todos os seus caminhos.

5º) É uma grande ajuda, na hora da tentação, ter a Palavra à mão. A Palavra é chamada de “espada do Espírito”. Nos conflitos espirituais, não há nada que se compare com ela. Aqueles que se aventuram a viajar em tempos perigosos, não o fazem sem levar uma espada. Nós estamos em tempos perigosos, e forçosamente temos de manejar a espada do Espírito. Quanto mais disponível tivermos a Escritura, maior será a vantagem em nossos conflitos e tentações. Quando o diabo tentou a Cristo, Ele tinha a Escritura preparada para o tentador, e por meio dela o venceu. Quando a Palavra está guardada em nosso coração, e quando a usamos de forma apropriada, a porta está trancada para Satanás, e ele não consegue entrada fácil. “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1Jo 2.14). Oh! é uma enorme vantagem termos a Palavra não somente perto de nós, mas dentro de nós, gravada no coração! Quando ela está presente conosco, estamos mais bem capacitados para resistir aos ataques de Satanás. O homem é arrastado pelo pecado quando se esquece da Palavra ou quando perde o gosto por ela.

6º) A Palavra de Deus é um grande socorro nas aflições. Nossos desmaios na tribulação têm sua origem no desconhecimento ou no esquecimento: “estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado” (Hb 12.5). Se tivéssemos uma planta em nosso jardim, que pudesse aliviar nosso sofrimento, não seria melhor saber onde a encontrar? Não há doença que não tenha sua cura na Palavra. Ter um alívio bem à mão é de grande ajuda.

7º) Guardar a Palavra no coração faz com que nossa reunião e nosso convívio com os outros sejam mais cheios da graça de Deus. “Porque a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). Quando o estoque da alma fica muito, ele sobe até a língua, visto que há um rápido intercâmbio entre o coração e a língua. A torneira verte o líquido de que o vasilhame está cheio. Considere uma pessoa de espírito indecente. Se for estimulado, se alguém levantar uma questão, e lhe der ocasião para expressar-se, nada mais se ouvirá dele a não ser um palavreado vão e fútil. Mas um homem que armazena a Palavra no coração é bem diferente. Como um recipiente cheio de vinho, ele precisa dar vazão ao que está dentro dele. Assim como se diz que os lábios da esposa destilam “favos de mel”, os lábios do homem cheio da Palavra estão sempre cheios de expressões agradáveis na conversa com os outros.

 

Antes de apresentar a segunda razão, permita-me antecipar uma possível objeção: "Isso tudo não é desmerecer o Espírito e atribuir a obra dele à Palavra? E ainda mais, não a Palavra conforme está escrita no livro de Deus, mas conforme está em nosso coração. Isso tudo não é inventar um outro tipo de graça?"

Deixe-me responder por partes.

1ª) Sem dúvida nenhuma, é obra do Espírito nos trazer à lembrança todas as coisas, e o grande auxílio que Ele nos dá vem das sugestões de passagens bíblicas mais apropriadas para socorrer a alma nas tentações, na oração, e nas obrigações diárias (Jo 14.16). Mas aquilo que se atribui às Escrituras e à graça em nada desmerece o Espírito, pois a Escritura é autoria dele, e a graça é a operação dele; sim, mantemos a maior honra do Espírito Santo, pois Ele não apenas opera a graça, mas opera por meio dela. Ele não somente compôs a Escritura, mas opera por meio dela; é Ele quem induz à oração, e por isso não devemos confiar em nosso próprio entendimento e memória, pois o Espírito é o grande lembrador, e é Ele que imprime na mente os pensamentos adequados a cada ocasião.

 2ª) Além disso, admito que os filhos de Deus estão sujeitos a esquecer com facilidade a Verdade impressa no coração deles; parcialmente por causa da nuvem e névoa que a tentação levanta. O salmista tinha verdades suficientes para sustentá-lo, contudo ele disse: “até que entrei no santuário de Deus ... eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença” (Sl 73.17, 22). Há tanta estupidez nos filhos de Deus, que eles não conseguem produzir pensamentos apropriados para o momento; assim como Agar, que estava perto de uma fonte mas não a enxergou até que Deus lhe abriu os olhos (Gn 21). Assim, quando estamos sob tentação, somos todos ignorantes, e a luz que já possuímos no entendimento se obscurece. E em parte isso acontece porque quase não temos consciência da necessidade do auxílio que a Palavra provê; há poucos que são sábios para armazenar para um ano de colheita ruim. E em parte isso acontece devido à preguiça e negligência, por estarmos envolvidos com outras coisas. É possível, às vezes, sermos guiados pelo Espírito, e agirmos corretamente meramente pela direção do Espírito Santo, sem nenhuma invervenção nem ajuda do nosso próprio entendimento, como vemos em João 12.13 comparado com o verso 16: “(a multidão) tomou ramos de palmeiras e saiu ao seu encontro, clamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor ... Seus discípulos a princípio não compreenderam isto; quando, porém, Jesus foi glorificado, então, eles se lembraram de que estas coisas estavam escritas a respeito dele”. Veja que eles foram guiados pelo Espírito a fazer algo que no momento não entendiam.

3ª) O Espírito Santo faz uso de uma memória santificada, trazendo à nossa lembrança a Escritura à medida que dela necessitamos. O que se diz é que eles se lembraram, porque o Espírito Santo fez uso da memória deles: “Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.17). Aqueles que se recusam a estudar a Palavra e a guardá-la no coração, não recebem essa ajuda no tempo apropriado; pois Deus opera mais poderosamente com as graças mais poderosas. Onde há maior receptividade, há maior influência (de Deus); aqueles que desconhecem a Palavra não podem esperar ajuda da mesma forma que aqueles que têm a Palavra habitando ricamente dentro deles.

A segunda razão por que devemos guardar a Palavra no coração é que Deus mesmo faz isso na obra da nossa conversão: “na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei” (Hb 8.10). A mente é comparada às tábuas de pedra, e o coração é comparado à arca; por essa razão nos é ordenado: “escreve-os (os meus mandamentos) na tábua do teu coração” (Pv 7.3). Como pode ser isso? Porque Deus faz isso na conversão, e é nossa obrigação fazê-lo?

A resposta é a seguinte:

1º) Deus requer que façamos aquilo que Ele opera, tanto para mostrar ao homem a sua obrigação, como para mostrar o poder da Sua própria graça. É Deus quem transforma você, contudo faça a sua parte; circuncide o seu coração e Eu o circuncidarei; mortifique os seus membros, mas lembre-se disto: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo”. Ele concede e requer, a fim de cativar a completa submissão do nosso empenho, e para nos tornar conscientes da nossa obrigação.

2º) Isso acontece porque essa obra precisa ser repetidamente executada para tornar-se mais e mais evidente. Nós precisamos encorajar essa prática, e colocar uma nova cópia da Lei em nosso coração, para que a obra inicial de Deus permaneça em operação.

 

Aplicações práticas do assunto

1ª Aplicação. Com o propósito de persuadi-los a estudar a Escritura, para que adquiram entendimento e guardem a Palavra no coração com fins piedosos. Esse é o Livro dos livros, não o deixe jogado por aí. O mundo permanece sem a Bíblia como o seu sol. O Salmo 19 fala a respeito do sol, e depois da Lei de Deus, a qual é para o cristão aquilo que o sol é para o mundo exterior. Reflita na grande utilidade da Palavra para informar o entendimento e para reformar a vontade. A Palavra de Deus é apta para que “o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.17). “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra” (Sl 119.9). Um jovem que é tão insensato e teimoso, que está no calor das suas paixões, contudo a Palavra é poderosa para purificá-lo, torná-lo obediente e submisso a Deus. Por essa razão, guardemo-la em nosso coração. Com essa finalidade, medite constantemente nisto: “Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração” (Lc 2.19). E como ela as guardou? “meditando-as no coração”. A meditação faz o fogo acender, e pensamentos intensos e constantes são muito eficientes. A galinha que se levanta do ninho quando está chocando acaba não gerando nada; é a constante incubação que faz os pintinhos saírem do ovo. Dessa forma, se tivermos apenas alguns pensamentos esparsos, e não pensarmos na Verdade; se tivermos lampejos apenas, como a pequena centelha de um raio de luz numa parede, isso nada vai produzir. Mas pensamentos sérios e intensos, com a bênção de Deus, com certeza farão a obra. Instigue o coração repetidas vezes. Pergunte: Isso é Verdade? Então o que pode acontecer comigo se eu a negligenciar? Isto é a Palavra de Deus? E não haveria ela de encontrar acolhida em meu coração?

Receba-a com amor. O apóstolo diz que esse é um dos fundamentos da apostasia: “porque não acolheram o amor da verdade” (2Ts 2.10). Oh! permita que ela impregne as suas afeições. Se ela ficar apenas na língua e na mente, como mero assunto de debate e especulação, ela em breve desaparecerá. A semente que fica na superfície logo é comida pelas aves do céu. Por isso, deixe que penetre no mais interior; permita que o encharque mais e mais. No início, é comum que se tenha uma apreensão pura e simples da verdade; depois ela avança para a consciência; mais tarde se aloja no coração; por fim, ela é armazenada. Quando ela se torna mais preciosa do que nossa paixão mais querida, aí ela não mais nos deixará. Quando ela irrompe no coração com provas e com poder, você não consegue mais manter os dois (sua paixão e a Palavra).

2ª Aplicação. Para orientá-lo na leitura da Palavra. Ela nos preserva de forma notável contra o pecado, e é um antídoto contra as infecções deste mundo. “No coração, tem ele a lei do seu Deus; os seus passos não vacilarão” (Sl 37.31). Enquanto a verdade for mantida vívida e ativa na consciência, não haveremos de vacilar, ou pelo menos não com frequência. Há muitas tentações que nos procuram desviar da obediência; mas estamos a salvo quando a Lei de Deus está em nosso coração. Veja como ela estava no coração de José: “como ... cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gn 39.9) — contra Deus, que é o majestoso soberano; que é tão infinitamente bom e poderoso; que é competente tanto para salvar como para destruir! Toda vez que você lê a Escritura, você deve armazenar alguma coisa. A melhor maneira de eliminar as ervas daninhas é encher o terreno de semente boa. Considere as promessas: quais você já armazenou no coração para confortá-lo nas lutas e aflições? Num tempo de provação você descobrirá que uma promessa vai confortá-lo e lhe dar ânimo mais do que todos os argumentos que a razão pode produzir. “O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica” (Sl 119.50). O salmista tinha uma palavra que o sustentava. Por isso, armazenemos as promessas. Assim também quanto aos perigos e ameaças, especialmente contra os pecados a que estamos mais propensos: “Quem há entre vós que ouça isto? Que atenda e ouça o que há de ser depois?” (Is 42.23). No momento, vai tudo bem com você, mas você protela as coisas que ainda virão, há pouca preocupação com elas: Amós 6.3 (“Vós... imaginais estar longe o dia mau...”). Você deveria pensar nas coisas que ainda vêm, e fazer provisão para elas.

Da mesma forma quanto ao ouvir. Não ouça com displicência, mas guarde a Palavra no coração, para que não seja enfraquecida pela sua própria negligência, sua desconsideração, sua ocupação com distrações carnais; para que ela não seja roubada por Satanás, que ele não tire da sua alma a boa semente. Quando a Palavra é pregada, há mais expectadores presentes do que aqueles que podemos ver com nossos olhos; há demônios e anjos presentes no auditório. Toda vez que os filhos de Deus se reúnem, Satanás está ali também. O diabo se faz presente para desviar a mente por meio de pensamentos que vagueiam, suscitando preconceitos para rejeitarmos a Palavra — ou por meio de desculpas, adiamentos (procrastinação), evasivas (subterfúgios), aplicando a Palavra aos outros quando começamos a sentir o nosso próprio pecado e perigo. O diabo reluta para não avançarmos muito, a fim de Cristo não conseguir mais um súdito para Seu reino. Por essa razão, esforcemo-nos para guardar alguma coisa no coração toda vez que ouvirmos um sermão: alguma reflexão saudável que mantenha você ativo na vida espiritual. Uma atitude consciente de esperar em Deus com toda certeza haverá de obter alguma coisa toda vez que ouvir um sermão. É triste pensar em quantas pessoas que têm ouvido muito, e que armazenam pouco ou absolutamente nada; pode até ser que anotaram alguma coisa no papel, mas não armazenaram a Palavra no coração.

Agora, com respeito à meditação. Medite na Palavra: não a estude com pressa, nem se contente com um mero aperitivo, ou uma pequena e passageira afeição; mas medite nela com seriedade, para que ela entre no mais íntimo do seu coração. Pensamentos apressados e superficiais não têm efeito algum. A carne precisa ser bem mastigada e digerida, se queremos que gere boa saúde e energia. Você tem de apegar-se firmemente à Palavra antes que isso resulte em alguma afeição. Esse era o costume de Davi: “Guardo no coração as tuas palavras”. A segunda coisa é o alvo e a finalidade do que ele fazia: “para não pecar contra ti” (Sl 119.11).

É preciso haver um propósito correto ao guardar a Palavra no coração: nosso conhecimento da Palavra deve nos conduzir à prática. Primeiro, não devemos estudar a Palavra apenas por curiosidade, para saber o que está nela, da mesma forma que as pessoas bisbilhotam as artes e outros assuntos seculares. Foi o que aconteceu com os atenienses com respeito a Paulo (At 17.18-21). Dessa mesma forma as pessoas podem nutrir interesse pela Palavra — “vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (Jo 5.35). O que ocorre é que nutrimos certas afeições falsas com respeito à Palavra quando ela é novidade para nós, mas quando se torna familiar, nós a detestamos. Esse tipo de afeição pela Palavra logo passa.

Em segundo lugar, não devemos guardar a Palavra no coração com o fim de ensinar aos outros, para fazer disso um negócio rendoso. Misericórdia! Uma pessoa pode ensinar aos outros e ser ela mesma um réprobo. Preste atenção, assim como acontece na cunhagem de moedas, um instrumento de aço pode fazer a impressão da estampa na prata ou no ouro; assim Deus pode usar os dons de certos homens para gerar fé nos outros, mas eles mesmos acabam perecendo. “Nós profetizamos em teu nome”, contudo a resposta será: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim” (Mt 7.22-23).

Em terceiro lugar, quando guardamos a Palavra no coração, também não devemos fazê-lo meramente porque isso nos dá prazer. Aumentar o conhecimento produz satisfação, uma vez que isso incrementa nosso preparo mental. A nossa mente está sempre em busca da verdade, e encontrá-la pode trazer satisfação até mesmo para uma mente que ainda não foi santificada. É o mesmo tipo de satisfação que se consegue quando se tem a estima e a consideração das pessoas ao nosso redor. Nem todo prazer em conhecer a Verdade é ter prazer em Deus! Há uma satisfação natural que temos ao contemplar alguma verdade sublime; isso é uma mera satisfação resultante da nossa própria capacidade, quando as afeições descobrem algum conhecimento — como é o caso de ser informado de alguma verdade misteriosa, ou o prazer que se sente ao aprender algo novo.

Em quarto lugar, não estudemos a Palavra unicamente por causa do bem-estar que isso produz, nem para acalmar a consciência. Uma vez que o homem é um ser racional, ele tem prazer em adquirir conhecimento; e como possui uma consciência que pressente a morte e o julgamento por vir, talvez ele sinta prazer no consolo que recebe ao estudar a Palavra. Há muitos que procuram promessas, mas não amam os mandamentos. O solo rochoso aparenta uma certa alegria; eles talvez se agradem da parte confortante da religião, mas a sua alegria não dá em nada — esse alegre avanço não é prognóstico seguro de uma colheita abundante. Por isso, nós somente recebemos a Palavra de forma correta quando consideramos a parte santa, e mortificamos nossos desejos e afeições naturais. Há muitos que lidam com a Palavra como os famosos fazem com seus companheiros humanos — querem entretê-los na mesa — ouvir as conversas deles, por causa da sua alegria contagiante; mas estreitar os laços com eles, e pagar as dívidas deles, ou aumentar-lhes a fortuna, isso eles não querem fazer. Há tantos que acolhem Cristo e a Palavra, especialmente as partes confortantes; mas não assumem a responsabilidade do evangelho em relação a si mesmos. Por essa razão não é suficiente estudar a Palavra meramente para podermos alimentar-nos com sua parte confortante, mas temos também de estudar a parte santa dela e aquela que requer nossa obediência. Esforcemo-nos, então, para guardar a Palavra no coração assim como fez Davi: para não pecarmos contra Deus.

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As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).

 

 

Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).

 

 

Aplica-te ao estudo da Palavra.

 

Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).

 

 

Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co 15.55)

 

 

Orar bem é estudar bem.

 

 

Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente (Is 40.8).

       

   Em tudo dai graças (1Ts 5.18).

 

 

Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).

 

 

Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra (Sl 121.1-2)

 

 

 

 

     

A vereda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4.18)
 
Deus tudo vê

 

Não temais, pequenino rebanho.

 

 

 

Deus existe e é galardoador daqueles que diligentemente O buscam. - Hebreus 11.6

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