
A revelação não é suficiente
A. W. Tozer
Num de Seus confrontos com os líderes judeus, Jesus nos chama a atenção para os Seus contemporâneos que acreditavam ser a verdade algo meramente intelectual. Eles acreditavam ser possível reduzir a verdade a um código — algo parecido ao que nós fazemos quando tomamos por certo que dois e dois são quatro. Aqui está o cenário, o problema e a contestação de Jesus:
"Corria já em meio a festa, e Jesus subiu ao templo e ensinava. Então, os judeus se maravilhavam e diziam: Como sabe este letras, sem ter estudado? Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo" (Jo 7.14-17).
Essa atitude para com a verdade sustentada pelas pessoas nos tempos de Jesus nos leva a considerar aqueles que fazem a mesma coisa hoje, apegando-se a um conceito intelectual da verdade de Deus. Não estou me referindo aos teólogos liberais que negam a pessoa e a posição de Jesus Cristo como Filho de Deus. Refiro-me antes àqueles que tenho de chamar de racionalistas evangélicos. A razão por que me preocupo é que cheguei à conclusão que o racionalismo evangélico acabará matando a verdade tão rapidamente como o fará o liberalismo.
Em primeiro lugar, veja os líderes judeus nos tempos de Jesus. Eles se maravilhavam com Ele, e diziam uns aos outros: "Como sabe este letras, sem ter estudado?" Eles se preocupavam com o fato de Jesus nunca ter estudado nas escolas de ensino superior. Muitas escolas daqueles dias nada mais eram do que pequenos grupos ensinados por um só rabino; não eram como são hoje nossas instituições com múltiplas disciplinas. É evidente que nosso Senhor jamais compareceu a esse tipo de escola rabínica. Por isso eles perguntaram: "Como é que Ele conseguiu esse ensino maravilhoso, já que nunca frequentou nenhuma escola dos rabinos?"
Ora, essa pergunta por si só nos diz muito a respeito dos judeus daquela época. Ela nos revela que eles consideravam a verdade (e você pode escrever a palavra com inicial maiúscula, se quiser) como algo meramente intelectual, passível de ser reduzida a um código. Para conhecer a verdade, era preciso apenas aprender o código. A maioria das pessoas não possuía livros; eles memorizavam o código na escola, e era esse o conceito que possuíam da verdade. Aprendemos isso não só da resposta de Jesus à pergunta deles, mas em todo o Evangelho de João.
A Verdade é mais do que palavras
Eles consideravam a verdade como algo intelectual. Conosco, o fato de que duas vezes dois são quatro constitui verdade, mas é uma verdade intelectual — uma evidência para a mente. Tudo o que temos de fazer é aprender a tabuada até duas vezes dois e obtemos o fato. Eles tinham reduzido a verdade de Deus a essa mesma situação. Para eles, não havia profundidade misteriosa na verdade, nada abaixo, e nada mais além. Duas vezes dois são quatro. E foi exatamente ali que eles se separaram do nosso Salvador, porque o Senhor Jesus constantemente ensinou o "mais profundo" e o "mais além". Mas eles jamais conseguiam perceber a profundeza do Seu ensino — eles apenas viam que duas vezes dois são quatro.
É isso que nós temos de lembrar: aqueles líderes religiosos evidentemente criam que as palavras da verdade eram a verdade. Essa continua sendo basicamente a compreensão errônea da teologia cristã. Fazer essa análise hoje não é insistir em algo insignificante. Não, não! Se fosse somente vontade de discutir algo sem importância, eu não me importaria com o assunto. Isto que estamos tratando tem consequências tanto morais como espirituais. Os judeus criam que a palavra da verdade era a verdade — criam que, se você tivesse as palavras, você tinha a verdade. Se você conseguisse repetir o código, você tinha a verdade. Se você estivesse vivendo pela palavra da verdade, você estava vivendo na verdade.
Eu repito: esse foi o exato ponto em que eles se separaram do Senhor Jesus Cristo. O Salvador tentou corrigir essa visão defeituosa. Ele lhes mostrou a qualidade celestial da Sua mensagem. Ele lhes mostrou que Ele era simplesmente um meio transparente por meio do qual Deus falou. Ele disse, de fato: "A minha doutrina não é minha — Eu não sou apenas um mestre ensinando doutrina que vocês podem memorizar e repetir. O que Eu estou lhes dando não é de forma nenhuma essa espécie de doutrina".
Uma nova frente de batalha
Anteriormente, Jesus lhes havia dito: "Eu nada digo por mim mesmo. Aquilo que vejo meu Pai fazer, isso Eu também faço, e aquilo que o Pai diz, isso eu também falo. Eu falo daquilo que vi no além. Eu sou um meio transparente através de quem a verdade está sendo anunciada. Vocês pensam que o caminho para a verdade é ir a um rabino e aprendê-la, mas isso não é a verdade — essa forma de aproximar-se da verdade é inadequada".
Aqui reside a fraqueza do cristianismo moderno, e eu me admiro que haja tanto silêncio a esse respeito. A frente de batalha, a guerra de hoje, não se trava necessariamente entre o fundamentalista e o liberal. Há uma diferença entre esses dois, é claro. O fundamentalista diz: "Deus fez o céu e a terra". O liberal diz: "Bem, essa é uma forma poética de pôr as coisas, mas na verdade isso ocorreu por meio da evolução". O fundamentalista diz: "Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus". O liberal replica: "Bem, Ele com certeza foi um homem maravilhoso e Ele é o Mestre, mas eu nada conheço sobre a Sua divindade". Dessa forma, existe de fato uma divisão. Mas a frente de batalha não reside mais nesses assuntos.
Alguns anos atrás, fui a Gettysburg com alguns amigos, e relembramos outra vez essa famosa batalha da Guerra Civil norte-americana. Lemos as lápides. Contemplamos os memoriais. Mas ali não há mais luta nenhuma agora. Não ouvi o troar de canhões, nenhum choque de espadas. Não vi nenhum soldado morto. Eu vi apenas o lugar onde se travou a batalha.
Ora, em nossos dias, alguns poucos ministros continuam agitando suas palavras sangrentas por sobre a cabeça, mas o sangue já está seco, porque na verdade não há sangue fresco entre liberalismo e fundamentalismo. Isso já está liquidado; aqueles que são liberais são liberais, e os que são fundamentalistas sabem o que creem e onde firmam os pés. A guerra não está mais ali. A batalha se deslocou para um outro e mais importante campo.
A guerra — a linha divisória de hoje — é entre os racionalistas evangélicos e os místicos evangélicos. Eu explico o que quero dizer com isso.
Há, hoje, um racionalismo evangélico em nada diferente do racionalismo ensinado pelos escribas e fariseus. Eles diziam que a verdade está na palavra e que, se você deseja conhecer a verdade, deve ir a um rabino e aprender a palavra. Se você aprender a palavra, você terá a verdade. Isso é racionalismo evangélico, e nos círculos fundamentalistas encontramos isso hoje aos montes. Isso está entre nós. É a doutrina que diz "se você aprendeu o texto, você aprendeu a verdade".
Um racionalismo mortal
Esse racionalismo evangélico matará a verdade tão rapidamente como o fará o liberalismo, embora o faça com mais sutileza. O liberal diz com toda franqueza: "Eu não creio na sua Bíblia inspirada. Eu não creio no seu Cristo endeusado. Eu creio na Bíblia de certa forma; ela é o registro dos principais feitos de homens destacados, e creio numa certa comunhão mística com o universo, creio que tudo é muito maravilhoso, mas eu não creio do jeito que vocês creem". Você pode identificar esse homem com muita facilidade. É quase automático. Você pode dizer que ele está do lado oposto, pois ele veste o uniforme inimigo.
Mas o evangélico racionalista de hoje continua trajando o nosso uniforme. Ele se aproxima vestindo nosso uniforme e diz aquilo que os fariseus disseram enquanto Jesus estava aqui no mundo (e eles eram os Seus piores inimigos): "Está certo, a verdade é a verdade, e se você crê na verdade, você possui a verdade!"
Naqueles tempos, ou em nossos dias, gente desse tipo não consegue ver além, e não divisa nenhuma profundeza mística, nenhuma altura misteriosa, nada sobrenatural nem divino. A única coisa que eles conseguem enxergar é:
Creio-em-Deus-Pai-Todo-Poderoso-criador-do-céu-e-da-terra-e-em-Jesus-Cristo-Seu-único-Filho-nosso-Senhor.
Eles estão de posse do texto e do código e do credo e, para eles, isso é a verdade. É dessa forma que eles a passam aos outros. O resultado disso é que estamos morrendo espiritualmente.
Agora, e o que dizer a respeito dos místicos evangélicos? Na verdade eu não gosto muito da palavra místico porque faz você pensar em alguém de cabelo comprido, barbicha de bode, pensativo, e que age meio esquisito. Talvez não seja uma boa palavra, mas estou me referindo ao lado espiritual das coisas — que a verdade é mais do que o texto. Existe alguma coisa na qual você precisa penetrar. A verdade é mais do que o código. Há um coração que bate nesse código, e você tem de chegar até ali.
A questão vital é simplesmente esta: Será que o mero corpo da verdade cristã é suficiente, ou será que a verdade, além do corpo, possui uma alma? O racionalista evangélico diz que toda essa conversa a respeito da alma da verdade são tolices poéticas. O corpo da verdade é tudo de que você precisa. Se você crê no corpo da verdade, você está a caminho do céu e dessa posição você não pode cair. No final, tudo dará certo e você, no último dia, receberá uma coroa.
Talvez pudéssemos fazer a pergunta da seguinte forma: Será que a revelação é suficiente, ou é preciso haver iluminação? A Bíblia é um livro inspirado? É um livro revelado? É claro, você e eu cremos que ela é uma revelação, que Deus falou todas essas palavras e homens santos falaram conforme foram movidos a isso pelo Espírito Santo.
Eu creio que a Bíblia é um livro vivo, que Deus a deu para nós e que não devemos ousar nem adicionar nem remover nada do que ali está. Ela é uma revelação.
A revelação não é suficiente!
Mas a revelação não é suficiente! É preciso haver iluminação antes que a revelação chegue até a alma de uma pessoa. Não é suficiente que eu segure nas mãos um livro inspirado. Eu preciso também de um coração inspirado. Há uma diferença, a despeito de o racionalista evangélico insistir em que apenas a revelação já é suficiente.
Isso está acontecendo bem aqui, na América do Norte. Um pastor me confidenciou as experiências que teve com certo grupo religioso. Eles creem que a verdade é suficiente, o código é suficiente. Aqueles que vão à frente atendendo ao apelo e dizem "Eu creio em Cristo" são aceitos como membros da igreja, e não se pergunta mais nada. Eles estão "dentro".
Conversei com um irmão que provou uma comovente experiência espiritual, com uma inundação de glória descendo e as asas de amor adejando sobre a alma dele, como acontecia aos cristãos nos dias do evangelista Charles Finney. Esse irmão me disse que foi "convidado a se retirar" da denominação a que pertencia, criticado por homens cuja única acusação contra ele era a sua fé no miraculoso elemento divino da graça. Ele cria não apenas na revelação da graça de Deus no livro, mas cria também que o novo nascimento era uma intervenção miraculosa de Deus na alma humana.
E quem foi que o atacou e o acusou de heresia? Foram os fundamentalistas. E foram os evangélicos — os racionalistas evangélicos, que dizem: "Se você apenas crer, tudo ficará certo".
Eles faziam isso também nos tempos de Jesus, quando diziam: "Quem é esse homem? Ele nunca se assentou aos pés dos rabinos para memorizar o texto. Ele não tem a verdade!"
Você pode decorar todos os textos da Bíblia — e eu creio na necessidade de memorizar a Palavra. Mas depois de fazer isso, você não alcançou nada mais do que o corpo. E a verdade tem, além do corpo, uma alma também. Há uma iluminação divina interior que o Espírito Santo tem de nos dar, caso contrário não saberemos o que significa a verdade.
Aqui reside a diferença. Temos de insistir no fato que a conversão é uma operação miraculosa de Deus por meio do Espírito Santo. Ela tem de ser operada em nosso espírito. O corpo da verdade, o texto inspirado, não é suficiente; é necessária uma iluminação interior!
A revelação não salva
Nos dias de Cristo, o conflito dEle era com o teólogo racionalista. Isso fica evidente no Sermão do Monte e em todo o livro de João. Da mesma forma que a carta da Paulo aos Colossenses é um argumento contra o maniqueísmo, e Gálatas argumenta contra o legalismo judeu, assim o livro de João é um livro longa, inspirada, apaixonadamente vertido com o propósito de nos salvar do evangelho racionalista — a doutrina que diz que o texto é suficiente. O textualismo é tão mortal quanto o liberalismo.
A revelação, eu repito, não pode salvar. A revelação é o chão em que pisamos. A revelação nos diz em que devemos crer. A Bíblia é o livro de Deus e isso eu sustento de todo o coração. Mas antes que eu possa ser salvo, precisa haver iluminação, arrependimento, renovação, libertação interior.
Não tenho dúvidas de que tentamos facilitar a entrada de muita gente no reino de Deus, pessoas essas que nunca jamais haverão de entrar. Elas são persuadidas a crer no texto, e elas o fazem, mas elas nunca jamais foram iluminadas pelo Espírito Santo. Elas nunca jamais foram renovadas no íntimo. Elas nunca entraram no reino, de jeito nenhum.
Ora, existe um segredo na verdade divina totalmente escondido da alma que não está preparada. É nesse ponto que nos encontramos nesses terríveis dias em que vivemos. O Cristianismo não é algo que você estende a mão e agarra à força, como alguns ensinam. É preciso haver uma preparação da mente, uma preparação da vida e uma preparação da pessoa interior antes que possamos crer de forma salvadora em Jesus Cristo.
Você pergunta: "É possível ouvir a verdade e não entendê-la?" Ouça o que diz Isaías: "Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais" (Is 6.9).
Sim, é possível ver e contudo não perceber. Paulo diz: "A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus" (1Co 2.4-5).
Agora, o teólogo racionalista entende isso tudo da seguinte forma: Ele diz que a sua fé não deveria basear-se na sabedoria do homem, mas na Palavra de Deus. Mas não é isso que Paulo disse. Ele disse que a sua fé deveria apoiar-se no poder de Deus. Isso é uma coisa completamente diferente.
Veja adiante, nesse mesmo capítulo: "mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito..." (1Co 2.9-10).
"Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1Co 2.11-14).
Paulo, o homem de Deus, está dizendo: "Eu fui pregar e preguei com poder que iluminasse e alcançasse a consciência e o espírito e mudasse a pessoa interior, para que a fé de vocês se apoiasse no poder de Deus".
A sua fé pode apoiar-se no texto e você ainda estar mortinho da silva, mas quando o poder de Deus invade o texto e desce como fogo sobre o sacrifício, aí então você terá o verdadeiro Cristianismo. Costumamos chamar isso de avivamento, mas isso não é avivamento de jeito nenhum. Isso é apenas o Cristianismo do Novo Testamento. Era isso que devia ter sido no começo, mas não tinha ocorrido.
Agora veja Mateus 11.25-27: "Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar".
Aqui temos a doutrina exposta de forma simples e clara. Não existe somente um corpo de doutrina que deixamos de lado por nossa conta e risco, mas existe também uma alma nesse corpo, à qual temos de chegar. Se não chegarmos à alma da verdade, a única coisa que teremos nas mãos será um cadáver.
É o Espírito Quem gera a vida
É possível que uma igreja prossiga sustentando o credo e a verdade por gerações seguidas e assim continue se perpetuando. Novos membros podem seguir e receber esse mesmo código e também acabar envelhecendo. Aí algum avivalista vem, abre fogo e inquieta a todos, e pela oração Deus Se manifesta naquele lugar e o avivamento chega àquela igreja. Pessoas que se julgavam salvas são agora salvas de fato. Pessoas que meramente haviam crido num código agora creem em Cristo. E o que é que aconteceu de fato? Aconteceu apenas que o Cristianismo do Novo Testamento recebeu o devido lugar. Não é uma edição de luxo do Cristianismo; é apenas o que o Cristianismo deveria ter sido já desde o começo.
Um homem começa a frequentar uma igreja, crê nos textos bíblicos, memoriza esses textos, cita-os, ensina-os e talvez até se torne um diácono da igreja. Ele talvez até seja eleito para a diretoria da igreja e tudo o mais. Aí, certo dia, ouvindo a pregação inflamada de algum visitante ou talvez do próprio pastor, ele de súbito sente-se em falta com Deus e, esquecendo-se de todo o seu passado religioso, põe-se de joelhos. Como Davi, ele começa a derramar a alma em confissão. Depois, levanta-se e testemunha: "Eu fui diácono nesta igreja por 26 anos e nunca havia nascido de novo, mas isso aconteceu hoje à noite!"
O que foi que aconteceu? Esse homem estava confiando no cadáver da verdade até que algum pregador inspirado o fez ver que a verdade tem uma alma. Ou, talvez Deus lhe ensinou em secreto que a verdade tem uma alma tanto quanto um corpo, e ele ousou avançar e insistir pelo arrependimento e pela obediência até que Deus honrou a sua fé e fez brilhar a luz. Daí, como relâmpago rasgando o céu, ela tocou o seu espírito e todos os textos que ele havia memorizado passaram a viver.
Graças a Deus, ele tinha memorizado os textos, e toda a verdade que ele conhecia, agora, de repente, floresceu na luz. É por isso que eu creio que devemos decorar as Escrituras. Essa é a razão por que devemos nos familiarizar com a Palavra, por que devemos encher a mente com os grandes hinos e canções da igreja. Eles haverão de significar muito pouco para nós até que venha o Espírito Santo. Mas quando Ele vier, Ele terá combustível para usar. Fogo sem combustível não queima, mas o combustível sem fogo está morto. E o Espírito Santo não virá a uma igreja onde não haja o corpo bíblico da verdade. O Espírito Santo não vem nunca para um vácuo, mas onde a Palavra de Deus está, ali está o combustível, e o fogo desce e queima o sacrifício.
O arrependimento é a preparação necessária
Jesus afirmou que aqueles que quiserem fazer a vontade de Deus conhecerão; eles conhecerão o Seu ensino — se ele procede de Deus ou se Ele fala de Si mesmo. Agora, esse corpo de ensino pode ser apreendido pelo intelecto comum, de capacidade média. Você pode apreender o ensino, mas somente a alma iluminada pode conhecer a verdade e somente o coração preparado será iluminado. E o que é essa preparação necessária?
Jesus disse que, se alguém quiser fazer a vontade de Deus, a luz haverá de invadi-lo. Deus lhe iluminará a alma. O que nós queremos é fazer de Jesus uma conveniência. Fazemos dEle um bote salva-vidas para nos conduzir até a praia, um guia para nos encontrar quando estamos perdidos. Nós O reduzimos a um mero bom Amigo que nos ajuda quando estamos encrencados. Isso não é o Cristianismo bíblico. Jesus Cristo é Senhor, e quando nos dispomos a fazer a vontade de Deus, isso é arrependimento e a verdade se manifesta em nosso interior. Pela primeira vez na vida nos vemos dizendo voluntariamente: "Eu vou fazer a vontade do Senhor, mesmo que isso me custe a vida!"
A iluminação começará sua obra no coração. Isto é arrependimento: nós que seguíamos nossa própria vontade estamos decididos a fazer a vontade de Deus!
Nós não podemos conhecer o Filho, a menos que o Pai no-lO mostre. Nós não podemos conhecer o Pai, a menos que o Filho O revele. Eu posso chegar a conhecer a respeito de Deus; isso é o corpo da verdade. Mas eu não consigo conhecer a Deus, a alma da verdade, a menos que eu esteja disposto a obedecer. Discipulado verdadeiro é obedecer a Jesus Cristo, aprender dEle, segui-lO e fazer aquilo que Ele nos ordena. É guardar os Seus mandamentos e executar a Sua vontade. Uma pessoa dessas é um cristão — e nenhum outro tipo de gente o é.
Quando você está tentando descobrir em que pé se encontra alguma igreja, não pergunte apenas se ela é evangélica. Veja se é uma igreja evangélica racionalista que diz "O texto é suficiente", ou se é uma igreja que crê que é necessário o texto mais o Espírito Santo.
Antes que a Palavra de Deus possa significar qualquer coisa em meu interior, é preciso que haja obediência à Palavra. A Verdade não se confia a um rebelde. A Verdade não transmitirá vida a um homem que não vai obedecer à luz! "... se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo o pecado" (1Jo 1.7). Aquele que está desobedecendo a Jesus Cristo não pode esperar ser iluminado.
A iluminação é um fato
Mas na verdade existe iluminação. Eu sei o que Charles Wesley quis dizer quando escreveu: "O Seu Espírito atende ao sangue,/ E me garante que eu nasci de Deus!" Não é preciso que ninguém me diga o que ele quis dizer com isso. "Aqueles que quiserem fazer a minha vontade" — disse Jesus na verdade — "haverão de receber uma revelação em seu coração. Eles receberão uma iluminação interior, que lhes assegurará que são filhos de Deus".
Se um pecador se dirige ao altar e um obreiro com um Novo Testamento cheio de anotações o introduz no reino por meio de argumentações, o diabo haverá de encontrar esse recém-convertido dois quarteirões abaixo e, com argumentações, o removerá do reino outra vez. Mas se ele for iluminado interiormente — esse testemunho interior — porque o Espírito respondeu ao sangue, você não conseguirá argumentar com uma pessoa dessas. Ele se tornará teimoso, sem levar em consideração os argumentos que você tentar manobrar. Ele vai dizer: "Mas eu sei!"
Um homem desses não é nem teimoso nem arrogante; ele apenas é seguro. Ele se parece com aquele alegre irmão crente que trabalhava numa fábrica, e alguém o convidou para uma reunião em que um homem pretendia provar que os cristãos estavam errados. Esse irmão foi assistir à palestra. Foi uma eloquente apresentação de argumentos de todo tipo. Na saída, o homem que o tinha convidado perguntou: "E então, o que você achou?"
"Olha, eu ouvi esta palestra com um atraso de 25 anos", replicou o cristão. "Foi 25 anos atrás que Deus fez na minha vida o que esse palestrante disse que é impossível ser feito!" Ora, esse é o Cristianismo normal. Esse é o jeito que deveríamos ser. "Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá." Ele haverá de saber.
Todavia, algumas pessoas continuam a resistir a Deus, recusando-se a seguir a Jesus, o tempo todo frustrados com algo que Ele lhes disse, mas que eles não vão fazer.
Você diz que pretende fazer um curso bíblico. Você pode fazer um curso e estudar tudo a respeito de síntese e análise e tudo o mais. Mas se você está resistindo a Deus, será o mesmo que ler um outro livro qualquer. Nem todos os cursos deste mundo iluminarão o seu interior. Você pode encher a mente de conhecimento, mas o dia em que decidir obedecer a Deus, o conhecimento haverá de descer ao seu coração. Você conhecerá. Somente os servos da verdade conseguem conhecer a verdade. Somente aqueles que obedecem alcançam a mudança interior.
O conhecimento não é suficiente
Você pode manter-se do lado de fora, e possuir toda a informação e saber tudo a respeito da verdade, e contudo não ser um verdadeiro discípulo que de fato conhece a Cristo. Certa vez eu li um livro a respeito da vida espiritual interior, escrito por um homem que de forma alguma era cristão. Ele era um intelectual esperto, um inglês perspicaz. Ele estava parado do lado de fora e examinava as pessoas espirituais por esse ângulo, mas nada daquilo o alcançava. E isso é possível!
Você pode argumentar sobre o assunto. Pode ler a sua Bíblia — ler qualquer versão que desejar — e se você é honesto haverá de admitir que é ou obediência ou cegueira interior. Você pode repetir a Epístola aos Romanos palavra por palavra e ainda assim estar completamente cego interiormente. Você pode citar todos os Salmos, e ainda estar cego interiormente. Você pode conhecer a doutrina da justificação pela fé e colocar-se ao lado de Lutero e da Reforma, e ainda continuar cego interiormente. Não é o corpo da verdade que ilumina; é o Espírito da verdade que ilumina.
Se você está disposto a obedecer ao Senhor Jesus, Ele haverá de iluminar o seu espírito. Ele iluminará você interiormente. A verdade que você conheceu intelectualmente agora você conhecerá espiritualmente. O poder começará a fluir abundantemente, e você se verá mudado, maravilhosamente transformado. Vale a pena crer num Cristianismo que de fato muda as pessoas.
Eu preferiria fazer parte de um pequeno grupo com conhecimento interior, a fazer parte de um vasto grupo com conhecimento meramente intelectual. No grande dia da volta de Cristo, o que vai importar é se eu fui iluminado interiormente ou não, se fui regenerado interiormente, purificado interiormente.
A questão é: Será que realmente conhecemos a Jesus dessa forma?
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).
Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Aplica-te ao estudo da Palavra.
Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co 15.55)
Orar bem é estudar bem.
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente (Is 40.8).
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Em tudo dai graças (1Ts 5.18).
Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra (Sl 121.1-2)
A vereda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4.18)
Deus tudo vê
Não temais, pequenino rebanho.
