Literatura para uma vida cristã sadia

As duas naturezas - A. W. Pink

As duas naturezas

A. W. Pink

 

"O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6); 

“Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).

Essas duas passagens (e outras similares) claramente afirmam que há duas fontes de ação dentro do cristão, distintas e contrárias uma à outra, das quais procedem tanto as más como as boas obras.

Os antigos expositores bíblicos costumavam referir-se a essas fontes de ação como “princípios” — os princípios do mal e da santidade.

Os escritores modernos se referem a elas como “as duas naturezas dentro do crente”.

Nada temos contra esta maneira de dizer, desde que seja usada para representar as realidades das Escrituras e não as imaginações humanas.

Mas nos parece que são muitos os que hoje falam das “duas naturezas” mas não têm uma concepção clara do que significa essa expressão, de forma que com frequência transmitem uma ideia distorcida aos seus ouvintes.

Na conversação comum do dia a dia, “natureza” representa em primeiro lugar aquilo que somos por causa da nossa origem, e em segundo lugar, as qualidades que se desenvolvem em nós através do crescimento.

Por isso, não há como deixar de reconhecer que a natureza humana contém elementos animais e demoníacos — o triste é que com frequência são os animais que nos envergonham!

Estamos falando, por exemplo, da natureza do leão (a ferocidade), da natureza do abutre (alimentar-se de carniça), da natureza do cordeiro (a docilidade).

A “natureza” descreve, então, aquilo que uma criatura é por nascimento e por inclinação, por caráter.

Visto que o cristão nasceu duas vezes, e está sujeito a dois tipos de crescimento, ele possui dois tipos de qualidades morais, que lhe pertencem: uma como nascido de Adão, a outra como nascido de Deus.

Mas é preciso tomar muita cautela a esta altura para que, por um lado, não erremos em nossa concepção daquilo que é o novo nascimento — ou, por outro lado, nos apeguemos de tal forma às duas naturezas, que acabemos perdendo de vista a pessoa que as possui, e assim na prática neguemos a sua responsabilidade.

Com vistas à clareza do assunto, temos de considerar essas duas naturezas separadamente, levando em conta primeiro aquilo que somos como filhos de homem — e depois aquilo que somos como filhos de Deus.

Observando o que somos como homens, precisamos distinguir com exatidão entre o que somos pela criação de Deus, e aquilo que nos tornamos por termos caído da retidão em que fomos originalmente criados — porque a natureza humana decaída é radicalmente diferente da nossa condição primitiva.

Mas aqui também temos de tomar muito cuidado ao definir essa diferença.

O homem não perdeu nenhum componente do seu ser em consequência da Queda.

Ele ainda permanece “espírito e alma e corpo”. Ele não perdeu nenhum elemento essencial da sua constituição, e nenhuma das suas faculdades foi destruída.

Em vez disso, o seu ser inteiro, depravado e corrompido, foi contaminado com uma doença repulsiva.

Uma batata continua sendo batata mesmo quando está congelada. Uma maçã continua sendo maçã mesmo quando apodrece por dentro e já não é comestível.

Na Queda, o homem abriu mão da sua honra e glória, perdeu a santidade e perdeu o favor de Deus; mas mesmo assim ele conservou a sua natureza humana.

Não há como insistir demais no fato que, na Queda, não foi destruído nada essencial da complexa constituição do homem, nenhuma faculdade do seu ser — porque multidões de pessoas tentam esconder-se por trás dessa compreensão errônea do assunto.

Eles supõem que o homem perdeu alguma parte vital da sua natureza quando Adão comeu do fruto proibido, e que essa perda é a responsável por todos os seus fracassos.

O homem se julga muito mais digno de compaixão do que de repreensão.

A repreensão, ele pensa, deve ser feita aos seus primeiros pais, mas ele mesmo merece compaixão porque está desprovido da sua capacidade de agir retamente. É dessa forma que Satanás obtém sucesso para enganar muitas das suas vítimas, e é o sagrado dever do ministro cristão expor esse sofisma e compelir os incrédulos para fora do seu refúgio de mentiras.

A verdade é que o homem, hoje, possui exatamente as mesmas faculdades que Adão possuía quando originalmente foi criado, e a sua responsabilidade reside no uso que ele faz dessas faculdades, e o seu crime está no mau uso delas.

Por outro lado, não são poucos os que creem que, na Queda, o homem recebeu uma natureza que não possuía anteriormente e, no esforço de esquivar-se da responsabilidade, jogam toda a culpa de suas ações corruptas nessa natureza perversa.

Esse subterfúgio também é errado e igualmente sem fundamento. Na Queda, não ocorreu nenhuma adição na essência do ser humano, da mesma forma que dela nada se retirou.

O que penetrou a constituição do homem na Queda foi o pecado, e o pecado poluiu cada parte da sua pessoa — mas isso nos torna culpados e não coitados.

E também o homem caído não se tornou a vítima indefesa do pecado, de forma que sua responsabilidade tenha sido cancelada!

Pelo contrário, Deus considera esse homem responsável por resistir e rejeitar toda inclinação para o mal, e vai puni-lo com justiça se ele não fizer isso!

Cada tentativa do homem de negar a sua responsabilidade tem de receber de nossa parte oposição firme e constante.

O jovem é muito diferente da criança que ele já foi, e o homem maduro difere muito do jovem imaturo que ele já foi; não obstante, é o mesmo indivíduo, a mesma pessoa humana que atravessa essas diferentes fases. Somos homens e assim vamos permanecer para sempre.

Qualquer que seja a mudança interna que sofremos na regeneração, e qualquer mudança que aguarda o corpo na ressurreição, jamais haveremos de perder nossa identidade essencial como Deus nos criou no início. É importante entender isso de forma clara, e apreendê-lo com firmeza.

Vamos repetir: nós somos as mesmas pessoas do início ao fim. Nem a perda da vida espiritual na Queda — nem a transmissão de vida espiritual no novo nascimento afetam a realidade de que possuímos aquilo que comumente se chama de natureza humana.

Por meio da Queda, não nos tornamos menos do que homens; da mesma forma, pela regeneração, não nos tornamos mais do que homens.

Aquilo que constitui a nossa humanidade, em essência, não se perde e não importa o que nos é dado na regeneração nossa constituição original não é mudada jamais.

Se conseguirmos compreender bem as diferenças acima, especialmente entre aquilo em que consiste a essência da nossa natureza e aquilo que ela “por acaso” pode se tornar em virtude das mudanças que se operam nela — então teremos menos dificuldade para entender o que significa o Senhor ter assumido a nossa natureza.

Na Encarnação, o Filho de Deus assumiu natureza humana. Em todos os aspectos, ele era um verdadeiro homem, com espírito e alma e corpo. “... convinha que, em todas as coisas, (Cristo) se tornasse semelhante aos irmãos” (Hb 2.17).

Isso não explica o milagre e o mistério da divina Encarnação, pois esse fenômeno é incompreensível, mas estabelece o fato fundamental daquilo que ocorreu.

Cristo não herdou a nossa corrupção, pois isso não fazia parte da essência da humanidade. Ele nasceu imaculadamente puro e santo, e assim permaneceu sempre; no entanto, ele tomou sobre si a nossa natureza considerada em sua essência básica.

Retornemos, por um momento, à nossa passagem inicial: “O que é nascido da carne é carne”. Aqui, a palavra “carne” é o nome dado à natureza humana decaída — não se restringe ao corpo (como acontece em algumas passagens), mas deve ser entendido (como geralmente acontece no Novo Testamento) como a inteira estrutura humana.

Ao declarar que “o que é nascido da carne é carne”, Cristo reafirmou um princípio básico e imutável, nove vezes repetido no capítulo primeiro de Gênesis: cada criatura se reproduz “conforme a sua espécie”.

A qualidade do fruto é determinada pela natureza da árvore que o produz: uma árvore má não pode produzir bom fruto. A natureza decaída do homem não pode produzir alguma coisa que seja isenta de pecado.

Não importa o quanto o homem decaído seja educado, civilizado ou moldado pela religião, em seu estado natural ele não consegue produzir aquilo que é aceitável ao Deus santo e trino. Para que produza bom fruto, ele precisa nascer de novo, precisa receber uma natureza nova e sem pecado.

“O que é nascido do Espírito é espírito.” Uma vida nova e espiritual é comunicada ao homem, e é dessa vida que procede a grande mudança moral que ocorre no homem que a recebe. Essa comunicação da vida de Deus à alma é representada no Novo Testamento de várias formas.

Ela é comparada à implantação de uma “semente” incorruptível na alma (1Pe 1.23; 1Jo 3.9); a uma limpeza do coração, uma “lavagem de água pela Palavra” (Tt 3.5; Ef 5.26); a uma renovação da vontade, ou à impressão da lei de Deus na mente (Hb 8.10).

A figura da “semente” transmite a ideia de um crescimento subsequente. A lavagem de água sugere apenas o início do processo de purificação; ao passo que a impressão da lei de Deus em nossa mente sugere a durabilidade e permanência da obra da sua graça. É dessa nova vida ou natureza, comunicada pelo Espírito, que se origina toda a vida espiritual.

Não temos nenhuma intenção de subestimar a maravilha e o milagre do novo nascimento. Longe disso; aceitamos inteiramente a declaração de nosso Senhor de que isso é um mistério que está além da capacidade de compreensão humana (Jo 3.8).

Se a comunicação da vida natural já é um enigma para a compreensão humana, quanto mais isso é verdade com relação à concessão da vida espiritual!

Por isso, em nosso esforço de esclarecer um aspecto da regeneração, tomamos o cuidado de nos guardar contra a deturpação de qualquer outro.

A coisa que estamos tentando deixar clara é que, por ocasião do novo nascimento, não é acrescentada nenhuma faculdade nova à alma humana. Não se faz nenhum acréscimo à sua tríplice constituição.

Antes de nascer de novo, o homem possuía espírito, alma e corpo; e agora não lhe foi entregue um quarto elemento. É o homem mesmo que nasce de novo.

Assim como, por ocasião da Queda, a sua pessoa foi depravada, agora a sua pessoa é regenerada.

Os efeitos plenos da regeneração se mostrarão apenas quando ele for glorificado.

Depois de considerar muito brevemente as duas naturezas do cristão, precisamos agora discriminá-las com precisão, bem como ao indivíduo em quem residem.

A natureza e a pessoa são, em muitos aspectos, bastante diferentes. Quer seja convertida ou não, a pessoa, essencialmente, é a mesma: quem foi divinamente ressuscitado é o mesmo que estava morto em delitos e pecados.

Da mesma forma, o mesmo indivíduo que anteriormente era filho da desobediência e que estava sob condenação é aquele que agora é justificado e santificado.

E, meu leitor, a prestação de contas diz respeito à pessoa, e não à sua natureza. As obras dizem respeito ao indivíduo, e não à sua natureza.

Não há como esquivar-se do fato de que, em seu coração, mesmo o não regenerado sabe que sua responsabilidade é agir e viver em oposição à sua natureza decaída, e que ele com justiça se torna culpado quando cede às suas inclinações depravadas.

É com base nisso que Deus vai julgá-lo no Dia do juízo, e isso se mostrará como algo justo de forma tão evidente, que toda boca se calará (Rm 3.20) e Deus será puro no seu julgar (Sl 51.4).

Por mais claro e simples que seja isso, ainda sentimos necessidade de trabalhar um pouco mais esse ponto.

Muitos cristãos nominais falam hoje da “carne” agindo neles e nos outros como se a manifestação da carne fosse algo inteiramente normal.

Se alguém repreende a pessoa por sua conduta imprópria para um filho de Deus, ela replica: “Mas isso é a carne agindo em mim!”

Esse tipo de conversa deixa bem evidente a tentativa de fugir da responsabilidade.

Se as más obras do cristão fossem desculpáveis com base no fato de que a carne continua nele, com essa mesma argumentação cada pecador desta terra poderia desculpar-se — e como é que Deus poderia julgar o mundo?

Na verdade, os não regenerados, em todo lugar, se escondem atrás da sua natureza pecaminosa para escapar da condenação, apesar de que, se ouvissem a própria consciência, com certeza saberiam que a natureza deles jamais os obriga a cometer um pecado sequer. Ela os influencia — mas eles são responsáveis por controlá-la e resistir a ela, e a essência da culpa deles é que não fazem isso.

Portanto, quem peca e é pecador é o homem. Quem precisa ser perdoado e justificado é o homem. Quem é responsável por não andar na carne, mas no Espírito é o homem. É a mesma pessoa o tempo todo.

É o homem quem nasce de novo, e não a natureza. É verdade que, por ocasião do novo nascimento, o homem recebe uma nova vida ou natureza, de forma que ele agora possui duas naturezas. E a sua responsabilidade é mortificar a velha natureza, ao mesmo tempo em que deve alimentar e fortificar a nova natureza e ser por ela governado.

A carne em nada melhora por causa da presença do espírito, da mesma forma que as ervas daninhas não melhoram em nada se plantamos flores no meio delas.

A carne e o espírito são opostos entre si, e a minha responsabilidade consiste em não fazer provisão para aquela — ao mesmo tempo em que ajo de acordo com as ordens deste último! 

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As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).

 

 

Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).

 

 

Aplica-te ao estudo da Palavra.

 

Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).

 

 

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Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).

 

 

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