
Murmuração, descontentamento e inquietação
J. C. Ryle
"Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei" (Hb 13.5).
Estas palavras são muito simples. Até mesmo uma criança pode facilmente entendê-las. Elas não contêm nenhuma doutrina elaborada; não envolvem nenhuma questão metafísica profunda; e, contudo, simples como são — nos prescrevem um dever da mais alta importância a todos os cristãos.
O contentamento é uma das mais raras virtudes divinas. Como todas as coisas preciosas, ela é extremamente incomum. É muito difícil praticar o contentamento. Falar de contentamento quando se está com saúde e prosperando é bastante fácil; mas estar contente no meio da pobreza, da doença, da tribulação, dos desapontamentos e das perdas — esse é um estado mental que poucos têm condições de alcançar!
Os anjos caídos tinham o próprio céu para habitar e a própria presença de Deus e o Seu favor — mas não estavam contentes com isso. Adão e Eva tinham o jardim do Éden para morar, com a livre permissão de aproveitar todas as coisas exceto uma árvore — mas eles não estavam contentes. Acabe tinha o trono e o reino, mas enquanto a vinha de Nabote não se tornou sua, ele não estava contente. Hamã era o líder predileto do rei persa, mas porque Mordecai ficou sentado à porta, ele não podia sentir-se contente.
É exatamente a mesma coisa em todos os lugares ainda hoje. Deparamo-nos, a todo momento, com murmuração, descontentamento e inquietação com o que temos. Dizer com Jacó: "Eu tenho o suficiente" parece bater de frente com o âmago da natureza humana. Dizer: "Eu quero mais" parece a língua materna de cada filho de Adão.
A orientação de Paulo deve bater com poder em nossa consciência: "Contentai-vos com as coisas que tendes", não com as coisas que vocês estavam acostumados a ter, não com as coisas que vocês esperam ter, mas com as coisas que vocês agora têm. Com essas coisas, quaisquer que sejam, devemos estar contentes. Com a nossa atual moradia, nossa atual família, nossa atual saúde, nosso atual salário, nosso atual trabalho, nossas atuais circunstâncias — exatamente as que agora possuímos — com essas devemos estar contentes.
Ah, leitor, se você quer de fato ser feliz, busque a felicidade no lugar certo, no Único em que ela pode ser encontrada. Não a busque no dinheiro, não a procure nos prazeres, nem nos amigos, nem mesmo no estudo. Procure a felicidade na conformação da sua vontade com a vontade de Deus, em colocar sua vontade em perfeita harmonia com a dele. Busque a felicidade aprendendo a estar contente.
Talvez você diga: "Falar é fácil, mas como é que se pode estar sempre contente num mundo como este?" Eu respondo: você tem de lançar fora seu orgulho e reconhecer a sua própria deserção de Deus, para tornar-se grato em toda e qualquer situação. Se os homens de fato soubessem que nada merecem e que são devedores à misericórdia de Deus todos os dias — então logo parariam de se queixar.
Vou contar-lhe por que existe tão pouco contentamento neste mundo. A resposta é simples: a situação é essa porque existe pouca boa-vontade e pouca piedade genuína. Poucos há que conhecem o seu próprio pecado; poucos sentem a sua deserção dos caminhos de Deus e extremamente poucos estão contentes com aquilo que têm. Humildade, autoconhecimento, uma clara visão de nossa completa vileza e corrupção — essas são as verdadeiras raízes do contentamento.
Se você quiser ser contente, eu lhe direi o que tem de fazer. Você tem de conhecer o seu próprio coração, buscar a Deus como a sua porção, achegar-se a Cristo como seu Salvador e alimentar-se diariamente da Palavra de Deus. O contentamento tem de ser aprendido aos pés de Jesus Cristo. Aquele que tem Deus como seu amigo e o céu como seu lar — esse pode aguardar de lá boas coisas e estar contente com pouco aqui em baixo.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).
Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Aplica-te ao estudo da Palavra.
Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co 15.55)
Orar bem é estudar bem.
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente (Is 40.8).
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Em tudo dai graças (1Ts 5.18).
Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra (Sl 121.1-2)
A vereda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4.18)
Deus tudo vê
Não temais, pequenino rebanho.
