
O que eu devo ler?
Uma questão para o momento
C. H. Mackintosh
Esta pergunta é de grande importância e de muito valor prático. Há muito mais coisas envolvidas no assunto do que talvez gostaríamos de admitir. É comum dizer "Mostra-me com quem andas, que te direi quem és". Com igual verdade podemos dizer "Mostra-me tua biblioteca e eu te direi onde estás". Nossa leitura pode ser tomada como o grande indicador da nossa condição moral e espiritual. Nossos livros são nosso alimento espiritual, a matéria de que se alimenta o homem interior. Daí a seriedade de toda a questão da leitura cristã. Admitimos a nossos leitores que esse assunto nos tem perturbado já há muito tempo. Dessa forma, sentimo-nos constrangidos, pela fidelidade ao Senhor e às almas de nossos leitores, a oferecer algumas poucas palavras de advertência com respeito ao que consideramos matéria de real importância a todos os cristãos.
É com profundo pesar que reparamos numa crescente falta de gosto por leitura sólida, especialmente entre os novos crentes, embora o fenômeno não se restrinja a eles. Jornais, novelas religiosas, histórias sensacionais, toda sorte de venenoso lixo literário* são avidamente devorados, enquanto livros de peso, com preciosas verdades, jazem negligenciados numa estante qualquer.
Isso é de lamentar profundamente. Nós o consideramos como uma alarmante indicação de uma condição espiritual muito pobre. De fato, é difícil conceber como alguém que tenha uma mínima centelha de vida divina possa encontrar prazer nesse tipo de material poluído como se vê hoje em dia na mão de muitos que se declaram cristãos. O apóstolo inspirado exorta a todos os cristãos: "...desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,...". Como é que podemos crescer se negligenciamos a Palavra de Deus e contudo devoramos jornais e livros sem valor? Como é possível um cristão estar saudável na alma, se ele mal pode encontrar uns poucos momentos para correr os olhos por cima de um ou dois versículos das Escrituras, mas pode gastar horas em leitura fútil e sem valor? De uma coisa podemos estar certos: aquilo que lemos prova sem sombra de dúvida aquilo que somos e onde estamos. Se nossa leitura é leve e frívola, é isso que somos. Se nosso Cristianismo consiste num tipo sólido e fervoroso, isso se evidenciará através daquilo que lemos voluntária e habitualmente - a leitura que selecionamos para nossa recreação e revigoramento. Talvez alguns repliquem: "Mas nós não podemos ficar o tempo todo lendo a Bíblia e bons livros." A isso respondemos simplesmente que a nova natureza nunca desejará ler nada diferente.
Agora, a pergunta é: A quem desejamos alimentar, a velha natureza ou a nova? Se é a última, estejamos certos de que nem jornais nem suave literatura são os meios que se devem usar. É impossível que um cristão verdadeiramente espiritual e fervoroso encontre prazer nesse tipo de leitura. Pode acontecer que um cristão envolvido em negócios ou em suas obrigações profissionais tenha de reportar-se a um jornal, mas isso é bem diferente de encontrar prazer e diversão nesse tipo de leitura. Ele não encontrará o maná escondido ou o grão de Canaã que o sustente no jornal. Ele não encontrará Cristo numa novela. É algo lamentável, revelação de profunda pobreza, ouvir um cristão dizer "Como é que poderemos ler a Bíblia o tempo todo?" ou "Que mal tem ler um livro de ficção?" Esse tipo de pergunta evidencia o fato de que a alma há muito já se afastou de Cristo. É isso que torna o assunto tão sério. Para que um cristão meramente pense em fazer esse tipo de pergunta, é necessário que o declínio espiritual já se tenha instalado e feito terrível progresso. Por essa razão, é de pouco proveito ficar discutindo se isso é certo ou errado. Não há meios de discutir corretamente, ou de pesar os fatos com justiça. A condição moral e espiritual toda está errada. "Há morte na panela" (2Rs 4.40). O que se precisa é da completa restauração da alma. Você precisa "trazer farinha" (2Rs 4.41), ou, noutras palavras, aplicar remédio divino para restaurar o estado doentio da sua natureza.
Sentimos forte pressão em nosso espírito para advertir seriamente o leitor cristão para essa grande e prática questão. Julgamos que é uma questão das mais profundas e da maior seriedade. O extremamente baixo vigor da Cristandade dos nossos dias deve-se, em muitos casos, da leitura leve e sem valor. O efeito moral de tudo isso é deveras prejudicial. Como é que uma alma pode prosperar, como é que pode haver crescimento na vida divina onde não há verdadeiro amor pela Bíblia ou por livros que revelem o precioso conteúdo da Bíblia a nossas almas? Será possível que um cristão possa se encontrar em condição saudável de alma, se prefere livros leves em lugar de algum volume que de fato lhe dará edificação espiritual? Acreditamos que isso não é possível. Estamos convencidos que todos cristãos genuínos, autênticos e honestos - todos os que de fato desejam avançar nas coisas de Deus, todos os que de fato amam a Cristo e anelam o céu e as coisas celestiais - todos os que têm essas características com certeza estão diligentemente lendo as Sagradas Escrituras e, com gratidão, valendo-se de todos bons e úteis livros que estão a seu alcance. Esses não têm nem tempo nem predileção por jornais ou literatura leviana. Para eles, a questão não se restringe a saber se é certo ou errado esse tipo de leitura; eles simplesmente não querem ler esse tipo de literatura, não têm gosto por ela, não a desejam. Eles têm algo muito melhor. "Quem vai querer cinzas, quando é convidado a regalar-se com o pão dos anjos?"
Pedimos ao leitor a paciência de nos suportar até que exponhamos o assunto com clareza e de forma completa. Sentimo-nos compelidos a isso tendo em vista o tribunal de Cristo. Quem dera pudéssemos escrever tão sinceramente como nos sentimos a respeito do assunto! Consideramos esse assunto uma das mais importantes e práticas questões que podem ocupar nossa atenção. Rogamos ao leitor cristão que evite e desista de toda e qualquer leitura frívola, leviana. Que cada um de nós pergunte, toda vez que pegar um papel ou livro para ler: "Será que eu gostaria que o Senhor me encontrasse com isto nas mãos? ou Posso trazer isto à presença de Deus e pedir a Sua bênção sobre esta leitura? Será que eu posso ler isto para a glória do nome de Jesus?" Se não pudermos dizer "Sim" a essas questões, então pela graça de Deus, fujamos desse texto ou desse livro e devotemos esses momentos de abstenção dessa leitura fútil à bendita Palavra de Deus ou a algum livro espiritual escrito a respeito dessa Palavra. Dessa forma, nossas almas serão nutridas e fortalecidas; haveremos de crescer na graça e no conhecimento do amor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e os frutos da justiça haverão de ser abundantes na nossa vida prática, para a glória de Deus.
Pode acontecer que algum de nossos amigos se recuse a ler qualquer coisa escrita por outros homens**. Há algumas pessoas que se recusam a ler outra coisa que não seja a Bíblia. Elas argumentam que encontram tudo o que desejam nesse inigualável livro, e que os escritos humanos são mais um obstáculo do que uma ajuda.
Bem, quanto a isso, cada um tem de julgar por si mesmo. Ninguém pode servir de regra para os outros. Mas com certeza não podemos considerar isso como assunto encerrado. Cada dia nós bendizemos o Senhor mais e mais por todos os graciosos auxílios que nos são oferecidos por meio dos escritos dos Seus amados servos. Nós os contemplamos como uma preciosa fonte de refrescância e bênção espiritual, descendo da nossa Cabeça glorificada nos céus, auxílios esses pelos quais não poderemos nunca louvá-lO suficientemente. Recusar ler os escritos de um irmão é o mesmo que recusar ouvir esse mesmo irmão pregando na assembleia dos santos; pois o que são essas duas ocasiões, senão ramos do ministério dado por Deus para nosso proveito e edificação? Temos de tomar cuidado para não superestimar algum ministério, quer oral quer escrito, mas um possível abuso de alguma coisa não é argumento válido contra o uso dessa mesma coisa. Há perigo em cada um dos extremos, e com toda certeza é coisa de fato perigosa desprezar algum ministério. Nenhum de nós é autossuficiente. É propósito divino que sejamos um auxílio uns para os outros. Nada podemos fazer a não ser aquilo que é "bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta". Quantos haverão de louvar a Deus pela eternidade por bênçãos recebidas por meio de livros e panfletos! Quantos há que nunca jamais receberão um átomo de ministração espiritual exceto a que o Senhor lhes envia através da página impressa. Talvez alguém argumente: "Eles têm a Bíblia". É verdade, mas nem todos têm a mesma habilidade de entender a fundo as vivas profundezas nem conseguem medir as glórias morais da Bíblia. Sem dúvida, se não podemos ter nem o ministério oral nem o escrito, o Espírito de Deus pode nos alimentar diretamente nas verdes pastagens das Sagradas Escrituras. Mas quem pode negar que os escritos dos servos de Deus são usados pelo Espírito Santo como uma mais poderosa agência na edificação do povo do Senhor na sua fé santíssima? Estamos firmemente convictos de que Deus tem usado mais desse tipo de intervenção (a boa literatura) durante os últimos quarenta anos do que em qualquer outra época na história da Igreja.
Será que podemos louvá-lo por isso? Com certeza. Deveríamos louvá-lo com todo o coração, com todo fervor. E deveríamos orar sinceramente que Ele continua a nos conceder sempre a bênção dos escritos dos Seus servos - que se aprofundem mais, que cresçam em poder e que se alargue a sua influência. Os escritos humanos, se não estiverem revestidos do poder do Espírito Santo, são apenas papel usado. Da mesma forma, a voz do pregador ou professor, se não for o veículo vivo do Espírito Santo, serão meras palavras sem sentido, ou como o címbalo que retine. Mas o Espírito Santo usa tanto um como o outro para abençoar as almas e para disseminar a verdade, e consideramos um grave erro desprezar uma forma de intervenção que Deus Se digna adotar. Na verdade, é raro encontrar alguém que recusa ajuda de escritos humanos que a essa atitude não se demonstre também, em breve, grosseiro e injusto. Isso é apenas o que deveríamos ter como expectativa, considerando que é o método divino fazer-nos mutuamente úteis uns para os outros. Em consequência, se alguém alega ser independente e autossuficiente, cedo ou tarde haverá de descobrir seu próprio erro.
* Inclui-se também, aqui, todo material disponível na internet e em todos os demais meios de comunicação atuais. [N. do T.]
** Acredito que essa maneira de ver as coisas seja menos comum em nossos dias entre a maioria dos membros das igrejas. Contudo, mantivemos o texto como no original, por apresentar o assunto com maturidade e com espírito manso. Sempre é bom aprender como um verdadeiro homem de Deus expõe algum assunto. Aprendemos não só aquilo que ele está ensinando no momento, aprendemos também a maneira com que ele ensina. [N. do T.]
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).
Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Aplica-te ao estudo da Palavra.
Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co 15.55)
Orar bem é estudar bem.
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente (Is 40.8).
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Em tudo dai graças (1Ts 5.18).
Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra (Sl 121.1-2)
A vereda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4.18)
Deus tudo vê
Não temais, pequenino rebanho.
