
Simplicidade e sinceridade de Deus
Carta escrita por John Newton (1725-1807)
Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria carnal, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo, e de modo particular convosco (2Co 1.12).
Prezado Senhor:
Seria algo maravilhoso se todos os que professam o evangelho pudessem, juntamente com o apóstolo, regozijar-se no testemunho da sua consciência, de que vivem em simplicidade e em sinceridade. Quantos males e escândalos seriam evitados! Mas, ah!, são tantos os que usam o nome de Cristo que parecem não ter a menor ideia dessa parte essencial do caráter cristão! Acredito que algumas poucas considerações sobre esse assunto tão pouco tratado nos serão de bom proveito. Aquele que está mais avançado na vida cristã ainda tem algo para aprender sobre isso; e quanto mais avançamos no assunto, maior será nossa paz interior, e mais haverá de brilhar a nossa luz diante dos homens, para a glória de nosso Pai celestial.
A simplicidade e a sinceridade, embora sejam inseparáveis, não são a mesma coisa. A primeira é o fundamento que dá origem à segunda. A simplicidade, antes de tudo, diz respeito à disposição do nosso espírito à vista de Deus; enquanto a sinceridade diz respeito à nossa conduta observável pelos nossos semelhantes. É verdade, os termos são frequentemente usados um pelo outro, e isso pode ocorrer sem provocar grandes erros; mas como não são exatamente a mesma coisa, julgo adequado, se queremos falar corretamente, deixar bem clara essa distinção.
Alguma pessoas, mais encantadas com o nome simplicidade do que com a essência do que essa palavra significa, têm atribuído a ela o sentido de infantilidade no falar e no agir; como se entendessem a palavra simples apenas no sentido vulgar, como equivalente de tolo. Mas essa infantilidade produz autêntico desgosto naqueles que têm verdadeiro gosto e adequado juízo das coisas de Deus. Uma simplicidade artificial ou aparente é uma contradição de termos, e difere tanto da simplicidade do evangelho quanto a maquiagem difere da beleza.
A simplicidade verdadeira, que é a honra e a força de um crente, é o efeito de uma percepção espiritual das verdades do evangelho. Ela surge do senso que temos (e cresce à medida que essa consciência se intensifica) da nossa própria indignidade, do poder e da graça de Cristo, e da grandeza do nosso comprometimento com Ele. À medida que nosso conhecimento dessas coisas passa a fazer parte de nossa vida e experiência, isso nos tornará simples de coração. Essa simplicidade pode ser considerada de duas formas — uma simplicidade de intenção, e uma simplicidade de confiança. A primeira se opõe às nossas obras corruptas; a segunda, ao falso raciocínio incrédulo.
A simplicidade de intenção significa que temos somente um alvo, para o qual dirigimos e ao qual subordinamos todos os nossos desejos e tudo que nos interessa, deliberadamente e sem reservas. Em resumo, que estamos devotados ao Senhor, e pela graça fomos capacitados a escolhê-lo, e a nos consagrar a Ele, de forma que nossa felicidade está no Seu favor, e fazemos da glória dele e da vontade dele o supremo alvo de todas as nossas ações. Ele é digno disso. Ele é o supremo bem. Só Ele é capaz de satisfazer a imensa capacidade que nos concedeu; pois Ele nos formou para Si mesmo. E aqueles que já provaram que Ele é gracioso, sabem que “a Sua graça é melhor do que a vida”, e que a Sua presença e plenitude podem suprir a falta ou a perda de toda e qualquer necessidade pessoal.
Dessa mesma forma Ele com justiça requer que sejamos totalmente dele; pois, além disso, como Suas criaturas, estamos nas Suas mãos como barro nas mãos do oleiro, Ele tem um documento de redenção para nós: Ele nos amou, e nos comprou com o Seu próprio sangue. Ele não hesitou, nem vacilou entre dois pensamentos, quando Se empenhou em redimir nossa alma da maldição da lei e do poder de Satanás. Ele, no momento da Sua agonia, poderia ter convocado legiões de anjos (se fosse necessário) para Lhe dar assistência, ou poderia ter destruído os Seus inimigos com uma palavra ou um simples olhar. Ele poderia facilmente ter Se salvado; mas como então teria sido salvo o Seu povo, ou como teriam se cumprido as promessas das Escrituras? Por essa razão, Ele voluntariamente suportou a cruz, Ele ofereceu as costas aos Seus torturadores, Ele derramou o Seu sangue, Ele renunciou a própria vida. Nele nós vemos uma admirável simplicidade de intenção!
“E nós, ó Amigo das almas, não deveríamos ser simples de coração, e totalmemte entregues a ti? Deveríamos recusar o cálice da aflição da tua mão, ou por tua causa? Ou deveríamos desejar beber o cálice do prazer pecaminoso, quando lembramos o que nossos pecados custaram para ti? Devemos desejar ser amados pelo mundo que te odiou, ou ser admirados pelo mundo que te desprezou? Devemos nos envergonhar de professar nossa ligação com um Salvador assim? Não, Senhor, não permitas que isso aconteça. Faze com que o teu amor nos constranja; que o teu nome seja glorificado, e a tua vontade seja feita, por nós e em nós. Que consideremos todas as coisas como escória e esterco pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus nosso Senhor. Que não desejemos nada que tu julgues por bem nos negar, nem nos lamentemos por aquilo de que queres que abramos mão. E que nem mesmo nos regozijemos naquilo que nos concedes, a não ser que possamos aproveitá-lo para ti; e que sempre desejemos mais o teu amor do que a nossa mais cara alegria!”
Essa é a linguagem do coração que foi abençoado com a simplicidade do evangelho. Ele já foi a fortaleza do pecado, o trono do interesse próprio; mas agora o egoísmo foi destronado, e Jesus reina pelo cetro dourado do amor. Esse princípio preserva a alma das buscas inferiores, sórdidas e idólatras. Ele não admitirá nenhum rival perto do Amado, nem se renderá aos subornos e ameaças do mundo.
Há, igualmente uma simplicidade de confiança. A incredulidade está constantemente levantando objeções, ressaltando e multiplicando dificuldades. Mas a fé no poder e nas promessas de Deus inspira uma nobre simplicidade, e lança sobre Ele cada preocupação, Ele que é capaz e Se comprometeu a sustentar e a cuidar.
Dessa forma, quando Abraão, em obediência ao chamado de Deus, deixou sua terra e sua parentela, o apóstolo observa: ele “partiu sem saber aonde ia”. Para ele era suficiente saber a Quem estava seguindo: o Deus todo-suficiente era o seu guia, seu escudo, e o seu grandíssimo galardão. Assim, quando forçado a esperar longamente pelo cumprimento de uma promessa, ele não se abalou — não discutiu nem duvidou — mas simplesmente dependeu de Deus, que tinha falado, e que também era poderoso para cumprir o que prometera. De forma semelhante, quando recebeu a dura ordem de oferecer o próprio filho, a respeito do qual tinha sido dito: “em Isaque será chamada a tua descendência”, ele simplesmente obedeceu, e dependeu do Senhor para que cumprisse a Sua própria palavra — Hebreus 11.18-19.
Foi nesse espírito que Davi saiu para enfrentar Golias, e o venceu. E dessa forma os três notáveis não temeram as ameaças de Nabucodonosor, escolhendo antes ser lançados numa fornalha acesa do que pecar contra o Senhor. E dessa forma Elias, num tempo de fome, foi preservado de preocupação e necessidade, e foi sustentado por meios extraordinários (1Rs 17.1-7). Em nossos tempos não ficamos na expectativa de milagres, no sentido estrito da palavra, mas aqueles que dependem de forma simples haverão de deparar-se com tais indicações da Sua intervenção em tempos de necessidade que, para eles pelo menos, será uma prova satisfatória de que Ele tem cuidado deles. Quão confortante é, e quão apropriado para a nossa declaração de fé, sermos capazes de confiar no Senhor na estrada do dever! Crer que Ele suprirá as nossas necessidades, dirigirá nossos passos, defenderá a nossa causa e controlará os nossos inimigos! É isso que Ele prometeu, e faz parte do evangelho a simplicidade de aceitar a Sua palavra contra todo desânimo. Isso nos encorajará a usar todos os meios legítimos, porque o Senhor nos ordenou esperar nele baseados na Sua palavra; mas também haverá de inspirar confiança e esperança quando tudo parece falhar (Hc 3.17-18).
Quando não exercem essa dependência, muitos desonram a sua profissão de fé, e chegam até a naufragar na fé. O coração deles não é simples; eles não confiam no Senhor, pelo contrário, apoiam-se no próprio entendimento, e as suas esperanças e medos recebem influência de vermes como eles mesmos. Isso provoca uma duplicidade de conduta. Eles temem o Senhor — e servem a outros deuses. Reparando na linguagem deles, às vezes se pensa que o desejo deles é servir apenas ao Senhor; mas se ficam com medo que Ele não vai protegê-los ou suprir-lhes as necessidades, fazem aliança com o mundo, e procuram tanto segurança quanto vantagens em aquiescências pecaminosas. Eles não podem regozijar-se no testemunho de uma consciência boa. Vivem de forma miserável. Tentam reconciliar aquilo que o Senhor declarou ser totalmente incompatível: servir a Deus e ao dinheiro. Eles conhecem o suficiente da religião ao ponto de tornar desagradáveis os seus interesses mundanos; e têm tanta estima pelo mundo que isso os impede de receber qualquer bem-estar verdadeiro da religião. Esses são os mornos na fé, nem quentes nem frios; nem aprovados pelos homens, nem aceitos por Deus. É possível que participem das ordenanças, e falem como cristãos; mas o gênio deles não é santificado, e a sua conduta é irregular e reprovável. Eles não são simples; e por essa razão não podem ser sinceros.
Não preciso me dar o trabalho de provar que o efeito da simplicidade será a sinceridade. Visto que aqueles que amam o Senhor acima de tudo, que preferem a luz do Seu rosto a milhares de ouro e prata, que foram capacitados a confiar nele quanto a todas as suas preocupações, e que preferem que Ele controle as suas vidas em vez de eles mesmos fazerem isso — esses serão pouco tentados à insinceridade. Os princípios e os motivos que regem a conduta deles são os mesmos tanto em público como em particular. O comportamento deles será íntegro, pois eles têm um só propósito. Eles falarão a verdade em amor, serão rigidamente pontuais nos seus negócios, e tratarão os outros como gostariam de ser tratados. Porque essas coisas são essenciais para o grande alvo deles, de glorificar o seu Senhor e de manter comunhão com Ele. Um temor de desonrar o Seu nome, e de entristecer o Seu Espírito os ensinará não só a evitar pecados grosseiros e conhecidos, mas a absterem-se de toda aparência de mal. A conduta deles, por isso, será consistente; e serão capacitados a dizer a todos os que os conhecem que “com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria carnal, mas na graça de Deus” eles têm se conduzido no mundo.
Para um cristão sincero, o engano e a esperteza que são considerados sabedoria no mundo, são considerados não apenas ilegítimos, mas também desnecessários. Ele não precisa de pequenos subterfúgios, evasivas, e disfarces, pelos quais homens astuciosos se esforçam (embora muitas vezes em vão) para esconder seu verdadeiro caráter, e fugir de merecido desprezo. Ele é o que parece ser, e por isso não teme ser descoberto. Ele anda na luz da sabedoria que é lá do alto, e se apoia no braço do Todo-Poderoso; por isso ele anda com liberdade — confiando no Senhor, a quem ele serve em espírito no evangelho do Seu Filho.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem (Jo 10.27).
Ao homem que teme ao SENHOR, Ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Aplica-te ao estudo da Palavra.
Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Is 55.6).
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co 15.55)
Orar bem é estudar bem.
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente (Is 40.8).
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Em tudo dai graças (1Ts 5.18).
Ao homem que teme ao SENHOR, ele o instruirá no caminho que deve escolher (Sl 25.12).
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra (Sl 121.1-2)
A vereda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4.18)
Deus tudo vê
Não temais, pequenino rebanho.
